Sobre a Dona Mena



São seis da manhã quando a Dona Mena fecha a porta de casa. Do lado de dentro ficaram os filhos, Belarmino e Leonildo. O mais novo dorme sem pensar que hoje a escola está aberta apenas para os professores. É tempo de avaliar as competências dos alunos e de se decidirem o futuro da juventude. O mais velho, o Leonildo, ficou sentado na cama, a descansar sobre o dia que se apresenta longo e de cansaços consecutivos. Os dois irmãos partilham o mesmo quarto. No mesmo espaço cabem duas camas, um sofá, uma televisão e a pequena estátua trazida da terra de onde os irmãos não nasceram mas da qual o coração e o bilhete de identidade indicam como a pátria prometida. Entre as paredes que conhecem desde a nascença, a divisão quarto-sala tem o sinónimo de uma fantasia criada nos brinquedos que partilharam, ainda que em momentos históricos diferentes, mas partilhada porque os avós lhes ensinaram a construção e a partilha de brinquedos. 

- Meninos, os brinquedos têm de surgir da vossa imaginação. Os melhores brinquedos são para serem construídos. Os sonhos não se vendem, constroem-se com as mãos como se fossem extensões dos nossos dedos.

Assim, aprenderam que não só os brinquedos se partilham, também os quartos e todas as divisões que se roubam pelas paredes, também essas são para partilhar. E o Belarmino e o Leonildo foram deixando de ser meninos em conjunto, como irmãos que se descolam do corpo apenas pela ordem da física, mas que se mantêm unidos pela força do pensamento.

Enquanto a Dona Mena fechava a porta de casa, a caminho do trabalho, depois de dizer um adeus, sabia bem que o marido Milton ouviria desde a cozinha, de onde só arredava pé depois de esvaziado toda a caneca de café. Sentado na mesa do pequeno almoço, do almoço e do jantar, o Milton a quem a idade deixara de reconhecer como velho ou novo, ficava a silenciar os azulejos na esperança de que um dia a riqueza iria bater-lhe à porta:



(quando encontrar a mala cheia de dinheiro vou pintar estes azulejos e vou encher o frigorifico de todas as coisas que o supermercado tiver de mais caro; vais ver Mena, faço de ti a cozinheira mais linda de todas e até o teu rosto vai brilhar no reflexo dos tachos; vamos ser ricos e vou ver-te a chegar de lenço, de muitas cores, e vais sorrir de orgulho porque o teu marido não é mais desempregado; vou encontrar a mala cheia de dinheiro e vamos buscar o resto da família para Lisboa; que se dane, vamos nós para a terra e vivemos da praia e dos peixes que pescar com um estalo de dedos.)



A porta de casa ao fechar-se fazia um barulho de acordar. Uma falha na fechadura que o marido prometera arranjar ontem. Havia esforço na Dona Mena para se esquecer de refilar com o marido. Tinham sempre pouco tempo juntos. O pouco tempo era a refeição, a televisão e o jornal que nunca se lembrava da sua terra, e no fim das contas, já antes de dormir, tempo para uma mão no peito e os lábios no ombro. Em segredo, na escuridão cada vez mais frequente, cabia à Dona Mena a lembrança de como o amor é o mais importante que temos:

- Milton, é verdade que ainda gostas de mim?

E o Milton sem responder com a voz, mas a dizer que sim com as pálpebras, cheio de medo que o desemprego também lhe roubasse o amor.



O caminho até ao trabalho era longo. Uma carreira de autocarro, duas caminhadas para lembrar às pernas que existiam, de novo um autocarro e por fim o metro que assustava por ser sempre noite, uma escuridão que limitava as orações por se perder o norte e as direções corretas da mão.

Ao chegar ao trabalho, enquanto vestia a farda, esquecia-se de que era bonita. A bata com que trabalhava era o caminho de costura entre um fato de macaco e um avental, feio de descrever, feio de vestir. E a Dona Mena, humildemente, na candura dos pobres, a sentir-se menos bonita, envelhecida pelo azulão que cobria o peito e o ombro onde ainda pousava a boca do marido.

A manhã lenta e as pessoas apressadas sem um bom dia. Ao olhar para o esfregão, a Dona Mena era uma valsa por dançar. Curvada para o chão, perseguida pelo balde, limpava o chão e as paredes como se lembrava de fazer com o apagador no quadro de giz na escola primária, em movimentos circulares, a fazer desaparecer a pouco e pouco as composições carinhosas dos alunos mais aplicados. 

A manhã cada vez mais lenta tardava o almoço. A hora preferida da Dona Mena. Era hora sagrada de se sentar na copa e de, quase encostada à parede, mergulhar na sandes e na pequena garrafa de grog que empurrava sempre o bolo alimentar. Era na copa, num espaço mínimo, onde se tornava quase impraticável o acto de comer ou de se mover algo com mais de metro e meio. Mas na copa, onde a felicidade a visitava, sabia que o tempo fazia a pausa suficiente para que, ao fechar os olhos por segundos, pudesse abri-los bem devagar para ver sentado ao seu lado o senhor de fato completo, com gravata e tudo, que timidamente mas cheio de oportunidade conta-se as histórias maravilhosas que todos os dias gostava de ouvir.

Tudo havia começado há um ano e dois meses. Quando o senhor de fato pediu licença para se sentar:

- Boa tarde Dona Mena, posso sentar-me para almoçar consigo?

Os pobres têm vergonha de sapatos engraxados e de gravatas. Por isso não respondeu e olhou para o chão. 

- Dona Mena, já vi que vai ser um almoço cheio de conversa. Vou sentar-me na mesma e vou falar pelos dois. Sabe, aquela gente ali de fora não se importa muito que eu venha para aqui. Gostam de andar em bandos, de inventar problemas de dinheiro, de calcular as calorias dos pacotes de amendoins, de abençoar a qualidade dos joelhos pelas corridas que fazem nos ginásios, de ler em voz alta os signos e as premonições das revistas. Dona Mena, eles sabem muito menos que estas paredes e eu gosto mais de si.



Desde esse dia, a hora do almoço era um acontecimento que esperava com ansiedade. Sabia que o senhor de fato apareceria sempre. E de todas as vezes, conversava sempre sozinho. Pelo menos assim entendia a Dona Mena, que teimava em não responder. Pelo menos por teimosia pensava o senhor de fato. Pelo menos, pelo menos estavam os dois errados. Na verdade, por ela o silêncio era por vergonha. Por ele falar sozinho não era bem isso, era saber que a Dona Mena ouvia como se decorasse. 

Uns dias falava sobre filmes italianos de que contava a história com pormenores de alfaiate. A assobiar a banda sonora, a mexer os dedos como os actores, a exemplificar expressões de realizar, a fazer gestos de saudade.

Outros dias lembrava a literatura portuguesa. Lia de pé poemas que escrevinhava nos guardanapos. Citava meio atrapalhado as peças de teatro que vira com a mulher no dia anterior. Fazia até desenhos de quadros de alguma exposição que se fosse lembrando no intervalo dos livros, do teatro e do cinema. 

Todos os dias trazia algo de novo. Mesmo no silencio da Dona Mena que por vezes se esquecia de ser indiferente e sorria devagarinho.



Naquele dia não foi diferente. O senhor de fato sentou-se na cadeira ao lado da sua. Não sem antes pedir autorização quase por escrito. Sem resposta, sentou-se e retirou um guardanapo do bolso e começou a ler:

- Hoje encontrei um poema que talvez venha a gostar. Dona Mena, apresento-lhe Jorge Barbosa, poeta cabo verdiano de quem gosto muito. E embora não consiga ter acesso aos seus livros, acabo sempre por descobrir algumas palavras perdidas em jornais. Mas para não lhe levar muito tempo, aqui vai, Momento, poema de Jorge Barbosa.



“Quem aqui não sentiu esta nossa fina melancolia...”



O senhor de fato parou antes mesmo de começar. Enquanto lia o poema de bolso, ou de guardanapo, olhou para a Dona Mena, na espera de quem quer uma comoção, uma palavra, um movimento, qualquer coisa que diga que se respira. E no seu espanto viu o choro de uma senhora que deixou de se encantar pela vida, esquecida nos tempos em que ainda menina se ofereceu ao mar como se os marinheiros fossem os deuses de uma salvação que tardou em vir. Nos olhos de uma Dona Mena que em segundos renasceu Menina Mena. Era um choro miúdo, a encarnação de uma infância que se recusa a desaparecer, o encontro entre o que se foi e o que se prometeu nunca deixar de ser. A Dona Mena chorava a sorrir, como só sabem fazer os que nunca abandonam os sonhos que se escreveram nos troncos, aqueles que continuam com a mão fechada com medo que a juventude seja uma flor que se desfaz.

- Continue senhor. Quero que continue a ler. Sabe, nós os pobres temos poucas coisas melhores que os filhos. Temos as memorias da nossa terra, da nossa gente, da família que ficou, dos amigos que se desencontraram. Temos os filhos e tudo isso que já não temos mais. Agora sei que temos outra coisa, temos isso que vocês chamam de poesia. E é tão bom ouvir que alguém da minha terra escreveu essas coisas bonitas. Quero que leia até ao fim.

E o senhor de fato continuo a ler o poema. Recomeçou e deixou as palavras saírem devagar. Leu o poema de pé, como lhe ensinara a professora de literatura, que jurou ser a única lição decente que haveria de aprender na faculdade.



“quem aqui não sentiu 

esta nossa

fina melancolia?



não a do tédio

desesperante e doentia,

não a nostálgica

nem a cismadora.



esta nossa

fininha melancolia

que vem não sei de onde.



um pouco talvez das horas solitárias

passando sobre a ilha

ou da música

do mar defronte.”





Quando terminou pensou que até as paredes se haviam comovido. A Dona Mena já não estava sentada na cadeira ao seu lado. Tinha saído na penúltima palavra. Deixou de esperar fosse o que fosse e saiu porta fora. 

O senhor de fato guardou o guardanapo no bolso, ajeitou a gravata e voltou para o lugar dos comuns, junto daqueles que não teriam sensibilidade para interpretar o guardanapo que fervia no bolso do casaco. 

Todo o caminho de volta a casa foi feito a pé. Demorou um dia de trabalho e mais as horas extraordinárias para chegar à porta de casa, onde, do lado de dentro, sabia que estavam o Belarmino e o Leonildo, receosos de um futuro que lhes fugia, contentes pelo momento, apavorados pela vida. Dois homens que olhavam para o pai com o respeito da idade. Que olhavam para a mãe com a segurança que lhes faltava. Que olhavam para si mesmos com saudade do que ainda eram: duas crianças.

Quando abriu a porta, o seu espanto fez-se de uma luz que não existe nas grandes cidades. Nos enfiamento dos seus olhos, mesmo ali, a um palmo, viu a sua praia de infância. No lugar da cozinha, onde deveria estar a mesa de pequeno almoço, de almoço e jantar, nesse mesmo sitio estava agora o limite do mar e o começo da areia clara. Quase que sentia as pequenas ondas a chegar ao que ainda de madrugada era o fogão. O som da chaleira fora substituído pela cantiga breve do eterno retorno do mar. E viu, sem que tivesse de esfregar os olhos, lá ao fundo, os dois rapazes abraçados ao pai, a olharem todos eles encantamento para a rede de pesca que mergulhava perto do cais. 

Deu pequenos passos até sentir a mão cheia de outra mão. Caminhava agora ao lado da avó materna. Entravam as duas para o que de madrugada era a janela e numa corrida quase irreal, juntavam-se ao Belarmino, ao Leonildo e ao Milton. Parando no tempo, quase ao mesmo tempo em que o poeta Jorge Barbosa arrumava o caderno de apontamentos e dizia para si:



- Amanhã escrevo um outro poema sobre ti, minha avó Mena.

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